quinta-feira, junho 07, 2007

TRECHO DE JORNAL: INDIGNAÇÃO

Obra do metrô varre esquina da Oscar Freire -
"Acho triste essa mudança. A Oscar Freire não é uma rua para ter metrô", diz a comerciante Luciana Liz, 29. "Não é por isso que a elite vai aderir ao metrô. Por aqui, metrô é coisa de pobre."

Trecho de reportagem do Jornal Agora São Paulo de 1 de abril de 2005.

INDIGNAÇÃO -

Acho triste ter na minha cidade pessoas que pensam assim. Acho triste ter gente que pensa que transporte público é coisa de pobre, que a Oscar Freire, tão chique, tão limpa, tão cheia de lojas refinadas, que a Oscar Freire sem fios deve se isolar do resto da cidade.

Uma pessoa assim propõe uma segregação. De um lado, a São Paulo dos ricos. De outro, a São Paulo dos pobres. E fiquemos na nossa ilha de ilusão. Achando que distantes da São Paulo dos pobres estamos protegidos da pobreza, da violência, da poluição, de “ver gente feia”.

Não, Luciana, infelizmente, principalmente a curto prazo, não vai adiantar colocar o metrô na porta da elite para ela aderir ao metrô. Pelo contrário, talvez a elite fuja do metrô. Talvez a elite rejugie-se em outra ilha. Mas a elite, Luciana, felizmente, não pode impedir o crescimento da cidade.

E tem mais, a elite depende da tal gente pobre, que para se locomover depende da tal coisa de pobre, como o metrô, que é bem mais rápido do que o ônibus, que polui muito menos que o ônibus, outra coisa de pobre que temos por aqui.

Quantas e quantas pessoas, aquelas que você chama de pobres, mas que são trabalhadores, pessoas de classe média, média baixa e de baixa renda, trabalham nas lojas da elite? São vendedores, auxiliares, encarregados de limpeza. E quantas empregadas domésticas trabalham na casa da chamada elite? Como você acha que elas chegam até o trabalho?

Quer dizer que o metrô não devia beneficiar estas pessoas, simplesmente porque a Oscar Freire não é rua para ter metrô? Então estas pessoas merecem ficar horas e horas esperando um ônibus sempre cheio porque a elite não quer ter o metrô em sua porta?

E você diz que “por aqui metrô é coisa de pobre”. Como assim, por aqui? Será que por aqui metrô é coisa de pobre porque a elite se acha muito superior para dividir o transporte com gente de todas as classes? Será que em outros países o pobre é menos pobre? Aí quando você vai para Paris, ou Londres, ou Nova York, você se mistura com os pobres de lá. Vai ver é porque pobre de Paris é mais chique que pobre de São Paulo. É isso que você pensa?

Será que em outros países o metrô não é coisa de pobre? Será que as pessoas da elite se servem do metrô? Talvez não. Mas elas também não tentam impedir que o metrô passe na porta de suas casas. Afinal, a grande massa trabalhadora depende do transporte público em qualquer parte do mundo. A cidade é feita para todos. A cidade não é feita para uma pequena parcela da sociedade. Uma parcela que não está nem aí se usar o carro todos os dias polui a sua cidade. A cidade não é feita para pessoas que pensam pequeno como você. A cidade é do povo. E o povo daqui, em sua maioria, é pobre sim, infelizmente.

Aliás, Luciana, o que é elite para você? Talvez ela esteja ofendida com a sua colocação.

Por Luciana Oncken, uma outra Luciana, que mora entre a Lorena e a Oscar Freire, mas que não se considera elite, mas sim uma moradora da cidade de São Paulo; da São Paulo com todas as suas faces. Uma Luciana que sonha em ver esta São Paulo transformada por todos, inclusive e principalmente, pela elite.

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