sexta-feira, maio 18, 2007

Ressonância Magnética


Trouxe alguém, a Tati, pra me fazer companhia e cá estou eu, sozinha. Antes tivessem me deixado na sala de espera a bater papo com a minha cunhada. Chamaram-me. Entrei. Agora estou aqui. Duas cadeiras: a que está debaixo da minha bunda, a que está apoiando os meus pés. Tento me equilibrar nas rodinhas. Em minha frente, uma mesa de trabalho. Sobre ela, uma pasta. Não, não é uma pasta, é uma prancha vermelha com o nome do laboratório. Um tela de computador, o teclado em frente, uns papéis colocados no canto, próxima à parede. Mas o que mais me chama atenção nesta sala silenciosa é o livro. Oliver Sacks: "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu". Capa violeta, um chapéu de mulher desenhado. Está sobre uma apostila. Os óculos, talvez da médica que viria me atender, ao lado. Lembro que não tenho nenhum livro, nenhuma revista, nenhum panfleto, ou qualquer coisa para ler, algo que me distraia. É isso que torna este cenário em que me encontro ainda mais torturante. Ainda mais para alguém como eu. Alguém que gosta tanto de ler, de folhear um livro. Estou bem há uns 10 minutos aqui. Parece uma eternidade. Longos 10 minutos sem ninguém para compartilhar a minha angústia. Nada mais me tira a atenção daquele livro. Passo a ter inveja daqueles óculos, ali tão perto, tão próximo do objeto de meu desejo. Gostaria de conhecê-los mais de perto: Oliver Sacks e o homem que confundiu a mulher com um chapéu. Já ouvi falar muito dos dois. Li sobre eles, mas ainda não tive a oportunidade de conhecê-los. Finalmente sou interrompida pela médica. Ela tem o mesmo nome. O meu nome. Respondo as perguntas, ainda distraída com o livro, que agora ela esconde com o próprio corpo. Ela sai. Voltamos a ficar a sós. O livro continua ali, a me torturar.

*A imagem ilustrativa é uma reprodução a partir de obras de Magritte

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