terça-feira, fevereiro 26, 2008

A Vila está em http://viladaspalavras.wordpress.com

quarta-feira, junho 13, 2007

Amizade sem prazo de validade

Um amigo para todas as horas. Um amigo para qualquer coisa. Daquele que te procura sempre e que está sempre ao seu lado, mesmo quando não concorda com você, independente do momento, seja bom, ruim, neutro, novo, velho, seja para ficar calado, ou falar sem parar, seja para chorar ou rir, ver um bom ou um péssimo filme, seja para ir a um bom restaurante ou à padaria da esquina. Um amigo que costuma contar tudo para você em primeira mão, um amigo que pede e dá conselhos, mesmo que não seja para seguir. Cadê você amigo? Hoje, só te encontro nas conversas de bastidores, sei de você pelos outros. Quero respeitar o seu momento, do qual por algum motivo não quis que fizéssemos parte. Amizade não tem prazo de validade. Amizade não se pede. Não se mendiga. Ou se tem, ou não se tem. Se for de verdade, e eu acredito e tenho no meu coração, por tudo que passamos, que é, você retorna no momento que tiver e que quiser voltar. Nós estaremos sempre prontos para recebê-lo.

terça-feira, junho 12, 2007

Pequenas coisas e coisas pequenas...

É, tem dia que você se encanta com as pequenas coisas
um dia de sol, um céu prá lá de azul, uma paisagem ofuscante, uma flor, um beijo...
tem dia em que você encontra coisas pequenas
normalmente pessoas
pessoas pequenas
de pensamento pequeno
de atitude pequena
que com pouca coisa
se acham muita coisa
que não sabem distinguir o que é passageiro
do que é para sempre
Nas pequenas coisas, estão grandes momentos
Nas coisas pequenas, grandes decepções

quinta-feira, junho 07, 2007

TRECHO DE JORNAL: INDIGNAÇÃO

Obra do metrô varre esquina da Oscar Freire -
"Acho triste essa mudança. A Oscar Freire não é uma rua para ter metrô", diz a comerciante Luciana Liz, 29. "Não é por isso que a elite vai aderir ao metrô. Por aqui, metrô é coisa de pobre."

Trecho de reportagem do Jornal Agora São Paulo de 1 de abril de 2005.

INDIGNAÇÃO -

Acho triste ter na minha cidade pessoas que pensam assim. Acho triste ter gente que pensa que transporte público é coisa de pobre, que a Oscar Freire, tão chique, tão limpa, tão cheia de lojas refinadas, que a Oscar Freire sem fios deve se isolar do resto da cidade.

Uma pessoa assim propõe uma segregação. De um lado, a São Paulo dos ricos. De outro, a São Paulo dos pobres. E fiquemos na nossa ilha de ilusão. Achando que distantes da São Paulo dos pobres estamos protegidos da pobreza, da violência, da poluição, de “ver gente feia”.

Não, Luciana, infelizmente, principalmente a curto prazo, não vai adiantar colocar o metrô na porta da elite para ela aderir ao metrô. Pelo contrário, talvez a elite fuja do metrô. Talvez a elite rejugie-se em outra ilha. Mas a elite, Luciana, felizmente, não pode impedir o crescimento da cidade.

E tem mais, a elite depende da tal gente pobre, que para se locomover depende da tal coisa de pobre, como o metrô, que é bem mais rápido do que o ônibus, que polui muito menos que o ônibus, outra coisa de pobre que temos por aqui.

Quantas e quantas pessoas, aquelas que você chama de pobres, mas que são trabalhadores, pessoas de classe média, média baixa e de baixa renda, trabalham nas lojas da elite? São vendedores, auxiliares, encarregados de limpeza. E quantas empregadas domésticas trabalham na casa da chamada elite? Como você acha que elas chegam até o trabalho?

Quer dizer que o metrô não devia beneficiar estas pessoas, simplesmente porque a Oscar Freire não é rua para ter metrô? Então estas pessoas merecem ficar horas e horas esperando um ônibus sempre cheio porque a elite não quer ter o metrô em sua porta?

E você diz que “por aqui metrô é coisa de pobre”. Como assim, por aqui? Será que por aqui metrô é coisa de pobre porque a elite se acha muito superior para dividir o transporte com gente de todas as classes? Será que em outros países o pobre é menos pobre? Aí quando você vai para Paris, ou Londres, ou Nova York, você se mistura com os pobres de lá. Vai ver é porque pobre de Paris é mais chique que pobre de São Paulo. É isso que você pensa?

Será que em outros países o metrô não é coisa de pobre? Será que as pessoas da elite se servem do metrô? Talvez não. Mas elas também não tentam impedir que o metrô passe na porta de suas casas. Afinal, a grande massa trabalhadora depende do transporte público em qualquer parte do mundo. A cidade é feita para todos. A cidade não é feita para uma pequena parcela da sociedade. Uma parcela que não está nem aí se usar o carro todos os dias polui a sua cidade. A cidade não é feita para pessoas que pensam pequeno como você. A cidade é do povo. E o povo daqui, em sua maioria, é pobre sim, infelizmente.

Aliás, Luciana, o que é elite para você? Talvez ela esteja ofendida com a sua colocação.

Por Luciana Oncken, uma outra Luciana, que mora entre a Lorena e a Oscar Freire, mas que não se considera elite, mas sim uma moradora da cidade de São Paulo; da São Paulo com todas as suas faces. Uma Luciana que sonha em ver esta São Paulo transformada por todos, inclusive e principalmente, pela elite.

sábado, maio 26, 2007

Imóveis

APRESENTAÇÃO DA PERSONAGEM - Dra. Ângela

Médica dermatologista, 52 anos, casada. Angêla estava sozinha num final de semana. Seu marido, também médico, estava num congresso longe da cidade. Ela resolveu sair e caminhar pelo bairro.

Não havia planejado nada, mas ao passar por um prédio viu que havia uma placa indicando um apartamento para vender. Apesar de já passar das seis da tarde e já tendo anoitecido, ela resolveu perguntar ao porteiro se havia como ver o tal apartamento. Não tinha muitas esperanças de que consegueria. Ficou surpresa quando o porteiro ligou para o apartamento e a proprietária autorizou a sua visita.

Fora das normas do condomínio, que só permitia este tipo de visitas até às 16h, ela subiu. Antes, deixou seus dados na portaria. Número do RG, nome completo, profissão e endereço.

O apartamento era no primeiro andar de um prédio já antigo. Três dormitórios, dois banheiros, mais o de empregada, boa sala, cozinha espaçosa. Uma senhora a esperava com a porta aberta quando ela subiu. Devia ter uns 75 anos, cabelos grisalhos, ajeitados, elegante em seu tailler.

- Oi, querida, boa noite, pode entrar – disse a simpática senhora.
- Boa noite – respondeu Ângela, um tanto tímida e meio curvada.
- Parece até que eu estava mesmo aguardando alguém. Tenho um bolinho e um café. Aceita?
- Não, senhoraaaa...
- Ah, me desculpe, meu nome é Dirce. O seu é?
- O meu é Ângela.
- Então, Ângela, aceita um bolinho com café?
- Ah! Senhora Dirce, obrigada. Não quero incomodar, desculpe vir a esta hora.
- Não tem problema, querida, não tem problema. Vamos ver o apartamento?
- Claro!
- Temos aqui uma boa sala. Tenho muita coisa aqui, mas bem que eu podia me livrar de metade disto. A gente junta muita coisa nesta vida. Olha, é que agora não dá para ver, mas é bem iluminada. Face norte. A janela é grande... É para você mesma?
- Ah! É...
- A senhora é casada?
- Ah! Sou... sim – diz Ângela, mostrando a aliança e um pouco de desânimo.
- Olha a cozinha, que beleza de espaço. A área de serviço também é muito boa, dá pra por uma mesa de passar, tem bastante armário. É bem ventilado. Não é como os apartamento de hoje em dia, tão pequeninos. Este aqui parece mais uma casa.
- E por que a senhora está querendo sair daqui?
- Ah, minha filha, este espaço ficou muito grande para mim.
- Ah é, os filhos vão embora...
- Não, eu não tenho filhos.
- Não?
- Não. Éramos apenas eu e meu marido. Faz 12 anos que ele morreu e desde então... estou só.
- Não tem família aqui.
- Não, já casei tarde. Nem pensei em ter filhos. Acho que éramos meio egoístas, na verdade. Tínhamos um ao outro e nos bastávamos.
- Mas a senhora gostaria de ter tido filhos?
- Talvez. Mas não sei não se ter filhos significa ter companhia. Hoje, vemos tantos pais abandonados.
- É, a senhora tem razão.
- Sobre o quê?
- Ter filhos não afasta mesmo a solidão.
- Vamos ver os quartos. São 3, sendo uma suíte.
- Pensei que fosse um pouco menor.
- Não. São 3 bons dormitórios. Bem iluminados, bem ventilados. Muito agradáveis. Venha.

Saíram da cozinha e caminharam em direção ao corredor íntimo. Lá estavam, bem distribuídos os três dormitórios.

- Mas quantos metros quadrados tem este apartamento?
- São 130 de área útil.
- É um bom tamanho.
- A senhora tem filhos?
- Dois.
- E mesmo assim sente-se solitária?
- Sim – disse meio sem pensar – quer dizer, não..., às vezes... sabe, eles saem, têm a vida deles, os amigos, a escola...
- Nunca sobra tempo para os pais, não é mesmo?
- É.
- Olha este quarto aqui, que beleza. Aqui é a minha biblioteca, mas pode ser o quarto de um de seus filhos.
- Ah! Não, um já mora sozinho. E a mais nova vai passar uns tempos estudando no exterior... Estou vendo que a a senhora gosta mesmo muito de ler.
- Gostávamos, eu e meu marido. Ficávamos horas em silêncio, um ao lado do outro, lendo, lendo. Era isso que nos aproximava. Este conforto de estar junto sem precisarmos pronunciar uma só palavra.
- Nunca tinha pensado as coisas por este lado.
- Pois é, minha querida, a vida está nestes pequenos grandes detalhes. A gente aprende com o tempo. Este negócio de discutir a relação é coisa de gente desmiolada. Coisa da juventude. Relação não se discute, se vive.
- O problema é quando nem se discute, nem se vive...
- Aí é triste.

Ângela dá um sorriso amarelo, vira-se e vai em direção à sala.

- O jogo, como está? – referindo-se ao jogo da Copa do Mundo: Alemanha X Portugal, que passava na TV ligada na sala.

- O jogo? Ah, vai indo...
- Bom obrigada pela atenção, vou falar com o meu marido.
- Era o que você procurava?
- É muito bom. Mas estava pensando num um pouco menor.
- Não quer saber o preço?
- Ah, claro. Imagina, ia me esquecendo...
- Acontece. Olha, estava pedindo R$ 350 mil, mas se fecharmos negócio, posso abaixar um pouco, já que não teremos intermédio de corretor.
- 350 mil?
- Pense com carinho e volte para conversarmos... Não só sobre o apartamento. E da próxima vez você toma o meu cafezinho.
- É muita gentileza.
- Mora aqui perto?
- Sim, a dois quarteirões – e foi saindo, andando de costas.
- Volte.
- Obrigada – diz e tropeça no tapete da porta de entrada.
- Oh, desculpe, tome cuidado, filha.
- Não foi nada, está tudo bem.